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VILA MARIA DO PARAGUAI (Cáceres), AFRICANOS LIVRES E A POAIA (Ipecacuanha)
Falar sobre a escravidão é bastante complexo. Foram tantas estratégias estabelecidas pelo governo imperial para o rompimento do sistema escravista e cada qual tem as suas especificidades. Nesta abordagem a proposta é dar visibilidade aos africanos livres, categoria que surgiu no sistema escravista a partir de 1831 cujo estatuto deles era “nem escravos, nem livres. O estudo abarca o espaço de Vila Maria do Paraguai, em 1851 foi criada a Sociedade de Mineração no Alto Paraguay (Diamantino) para extração de minérios e a partir de 1854 o mesmo decreto estabeleceu a extração da poaia, (Cephaelis-Ipecacuanha, ipeca) planta medicinal, na época considerada o “ouro negro”. Fez parte do mercado exportador por meio da navegação fluvial utilizada na fabricação de remédios. Para a extração da raiz, os africanos livres, os escravizados e homens livres pobres foram inseridos como mão de obra em Vila Maria do Paraguai; porém, nem sempre esses protagonistas são devidamente lembrados como contribuintes da cultura local.
O que significa a denominação africano livre? De acordo com Moura (2014, p. 97), a
categoria surgiu a partir da lei antitráfico, de 1831. O estatuto deles “nem escravos, nem livres” tinha um sentido particular e diferente, mas relacionado ao desenvolvimento Atlântico. Africanos livres eram legalmente livres, mas mantidos sob custódia por um período e não podiam gozar totalmente da liberdade (Moura, 2014, p. 14). Segundo a Lei de 1831, declarava livres todos os cativos africanos trazidos para o país, “A Regência, em nome do Imperador, o senhor dom Pedro Segundo, faz saber a todos os súditos do Império, que a Assembleia Geral decretou, e ela sancionou a lei seguinte.
Art. 1º Todos os escravos que entrarem no território ou portos do Brazil, vindos de fóra, ficam livres. Exceptuam-se:1º Os escravos matriculados no serviço de embarcações pertencentes a país onde a escravidão é permittida, enquanto empregados no serviço das mesmas embarcações.
2º Os que fugirem do território, ou embarcação estrangeira, os quaes serão entregues aos senhores que os reclamarem, e reexportados para fóra do Brazil”. (Câmara de deputados).
Aqueles que deveriam ser protegidos da reescravização por força da campanha contra o tráfico foram empregados não de “forma nova”, mas de modo compulsório (Moura, 2014, p. 10). No Brasil os serviços em que os africanos livres poderiam estar inclusos eram na construção da estrada de ferro, na fábrica de pólvoras, nas companhias da navegação fluvial, na limpeza pública e na sociedade de mineração de Mato Grosso. Porém, a partir de 1854, o Decreto de nº 1.399, estabelecia-se que poderia empreender não só trabalhos de mineração, como também, extrair a poaia, vinculada ao ministro dos negócios da Corte Brasileira, uma indústria lucrativa para a Coroa Portuguesa e para os sócios. Para a província de Mato Grosso vieram uma média de 100 pessoas incluindo homens-mulheres e crianças.
José Marcelino da Silva Prado, explorando garimpos de diamantes nas imediações do Rio Paraguai, observou que os garimpeiros doentes tomavam um chá de uma raiz facilmente encontrada na mata da região. Essa raiz era a poaia, planta conhecida dos povos indígenas, que tinham repassado seu conhecimento medicinal aos colonizadores (Moura, 2014).
A poaia chamada de ipecacuanha – ipeca é uma raiz do cerrado, possui uma semente chamada emetina. É uma raiz preta por fora e branca por dentro, formada de anéis, e podia ser colhida na época da chuva.
Os africanos livres a partir de 1854 em Vila Maria do Paraguai(Cáceres) tiveram participação na extração da poaia ipecacuanha, uma raiz utilizada para fazer chá e remédios, de fácil acesso, encontrada às margens dos Rios Santana e Paraguai, ao Norte da província, em Diamantino, e nas regiões de Vila Maria, e de Barra do Bugres, lembrando que na época Barra era distrito de Cáceres.
Sobre a poaia-Ipecacuanha os vereadores de Vila Maria sempre mencionavam nas reuniões o produto da economia, e na sessão da Câmara Municipal de Vila Maria de 1880, consta o “pedido de compra de um terreno devoluto na margem esquerda do Rio Paraguay, desde a barra do Rio dos Bugres até o lugar denominado Piúva, para a população trabalhar na extração da ipecacuanha”. Outro ofício é do brigadeiro José Joaquim de Carvalho pedindo permissão “para explorar borracha e outros vegetais na margem direita do Rio Paraguay, desde a foz do Rio dos Bugres até o distrito de São Luiz de Cáceres”, lembrando que na época Barra do Bugres era distrito de Cáceres.
O guarda dos africanos livres, era responsável pela organização do trabalho e dos registros dos acontecimentos, solicitando, muitas vezes, ao presidente de província, tratamentos de saúde, o que não significa que a situação era resolvida.
Outro exemplo de informações sobre os africanos livres foi do Quartel do Comando do Destacamento de Vila Maria, 4 de Março de 1864 de N.º 4.
Illm.º e Exm.º Snr.
Cumprindo a portaria de V. Ex.ª que me ordena fazer seguir ao Comando em Chefe os africanos livres que se acham neste destacamento, tenho a honra de participar que apenas existem aqui quatro deles, os quais, por causa das chuvas e do estado do tempo, não puderam ainda seguir caminho. Porém, assim que se restabelecerem as passagens e houver segurança nas travessias,
farei seguir imediatamente esses africanos com a escolta necessária. Devo declarar também que muitos africanos livres têm sido reclamados por particulares que os conduzem a outros lugares do Império, nomeando-se, entre outros, Manuel Chaves, de Natividade, e Benedicto Pereira, como pessoas que requereram a restituição de alguns deles. O chefe da Polícia da província enviou igualmente ofício recomendando que se verificasse o paradeiro dos africanos livres que se achavam em poder de particulares sem licença. Deos Guarde a V. Ex.ª Quartel do Comando do Destacamento de Vila Maria, 4 de Março de 1864.
Os africanos livres sobreviveram e lutaram de maneiras variadas, como a revolta ocorrida em Vila Maria, em março de 1864, seguida pela fuga dos quinze africanos, e próximo do local da extração da poaia havia quilombo Área sempre visada pelas autoridades politicas como perigosa. Outra forma de enfrentar o sistema escravista foi a reivindicação feita pelos africanos livres sobre a emancipação uma vez que, o Decreto nº 3.310 de 24 de setembro de 1864 dizia sobre a emancipação do grupo social:
Art. 1º diz: Desde a promulgação do presente Decreto ficão emancipados todos os Africanos livres existentes no Império ao serviço do Estado ou de particulares, havendo-se por vencido o prazo de quatorze annos do Decreto número mil trezentos e três de vinte oito de Dezembro de mil oitocentos cincoenta e três.
Ainda que fossem emancipados, a matrícula do referido grupo social estava vinculada à secretaria da polícia, com a informação – onde residiam, havia um registro e o efeito era a obtenção do controle que as autoridades possuíam a respeito de qualquer movimentação. A legislação previa a emancipação do grupo social, o governo provincial considerou que esses africanos livres deveriam estar inseridos no serviço público no Arsenal de Guerra e da marinha e depois ir para a Guerra da Tríplice Aliança confronto bélico que ocorria naquele momento. Os africanos livres uma vez emancipados ficavam sob a tutela do Estado e, por isso, deveriam estar inseridos no serviço público ou privado, já que o sistema seria extinto e o trabalho assalariado seria implantado.
As atitudes dos africanos livres revelam o rompimento com o sistema e, de acordo com Moura (2024), de alguma forma eles sabiam da emancipação, pelas relações de convivência com outros grupos sociais, os escravizados e outros homens livres que trabalhavam na extração da poaia e na mineração.
Quantas famílias e quantas histórias de poaeiros ainda estão no anonimato e podem revelar a história da cidade, assim como, a dos africanos livres personagens que conheceram compulsoriamente as matas úmidas e nelas semearam memórias ainda esquecidas. Após a abolição muitos enfrentaram desafios nas matas e quantos causos sobre suas vivencias se perderam, pois quase nada sabemos. A extração ocorreu até os primeiros anos do século XX logo depois, a planta começou a se extinguir, além do que já não era requerida pelos laboratórios farmacológicos europeus, que tinham descoberto outras drogas que foram utilizadas em seu lugar (Reynaldo, 2013, p.169).
Essa abordagem abarca uma parcela da economia de Vila Maria, bem como, as formas de sobrevivência da categoria de africanos livres frente ao sistema escravocrata e, por sua vez, não se encerra nesta escrita, pois esta é apenas uma provocação para aqueles que quiserem enveredar no tema.

Profª Drª Maria de Lourdes Fanaia-historiadora-(prof.ª da Unic).
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Cáceres sobre duas rodas: é preciso agir antes que a imprudência vire tragédia

Por: Marcelo Horn
Basta circular alguns minutos pelas ruas de nossa querida Cáceres para perceber uma nova realidade: as bicicletas elétricas e outros pequenos veículos motorizados estão por toda parte.
Viraram uma verdadeira febre.
O que poderia representar apenas uma alternativa moderna, econômica e sustentável de transporte começa também a se transformar em um sério problema de segurança no trânsito e até mesmo de saúde pública (hospitais lotados de acidentados) .
Todos os dias vemos situações preocupantes: veículos trafegando na contramão, cruzando preferenciais sem qualquer cautela, circulando entre carros e motocicletas, avançando cruzamentos e sendo conduzidos, inclusive, por crianças e adolescentes.
E aí surge uma pergunta que precisamos fazer antes que seja tarde demais:
Vamos esperar acontecer uma tragédia para começar a organizar isso?
É importante esclarecer que nem tudo aquilo que popularmente chamamos de “bicicleta elétrica” é, juridicamente, uma bicicleta elétrica. A legislação estabelece diferentes categorias e, dependendo da potência, velocidade e características do equipamento, as exigências também mudam.
Existem bicicletas elétricas que não exigem habilitação, registro ou emplacamento. Existem também equipamentos autopropelidos. Mas existem veículos que, embora muitas vezes sejam vendidos e apresentados como simples “bicicletas elétricas”, possuem características de ciclomotores e estão sujeitos a outras exigências legais.
O problema é que boa parte da população simplesmente desconhece essas diferenças.
E o resultado dessa desinformação está nas ruas.
Há uma falsa sensação de que, por ser pequeno, elétrico e aparentemente inofensivo, esse tipo de veículo pode circular de qualquer maneira.
Não pode e não deve.
Trânsito possui regras porque um erro de segundos pode custar uma vida (e já se foram muitas vidas).
Uma criança ou adolescente, sobretudo em horário de saída das escolas, conduzindo um equipamento motorizado em meio a automóveis, motocicletas, ônibus e caminhões está exposto a um risco que talvez nem tenha maturidade suficiente para compreender.
E aqui também precisamos falar sobre a responsabilidade dos pais.
Antes de entregar um desses veículos a um filho, é indispensável saber exatamente qual equipamento está sendo adquirido, qual velocidade pode atingir, onde pode circular e quais são as exigências legais e de segurança para sua utilização.
Da mesma forma, os estabelecimentos comerciais que vendem esses produtos deveriam orientar adequadamente seus clientes. Não basta vender. É preciso informar.
Mas a maior responsabilidade pela organização do espaço público pertence ao Poder Público.
Cáceres precisa urgentemente promover campanhas educativas, estabelecer regras claras para circulação, orientar a população e fiscalizar os abusos.
Não se trata de perseguir quem utiliza bicicleta elétrica. Muito menos de ser contrário à modernização da mobilidade urbana.
Trata-se de preservar vidas.
A tecnologia chegou e certamente veio para ficar. O que não pode acontecer é a cidade assistir passivamente ao crescimento desordenado desses veículos até que acidentes graves façam aquilo que a prevenção poderia ter feito antes.
Fiscalizar hoje não é perseguir. Orientar hoje não é proibir. Organizar hoje é evitar que uma família chore amanhã.
Cáceres precisa enfrentar essa questão enquanto ainda podemos tratá-la como um problema de organização do trânsito.
Porque, depois de uma vida perdida, nenhuma fiscalização tardia será capaz de voltar no tempo.
As bicicletas elétricas vieram para ficar. A imprudência, não.
MARCELO GERALDO COUTINHO HORN, advogado e professor universitário (DIREITO/UNEMAT), Especialista em Direito Público, Mestre em Direito e Doutor em Linguística. ([email protected])
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A Região Oeste tem votos para eleger seus próprios deputados?
Estudo mostra que o eleitorado regional representa 9,3% de MT; vitória para estadual e federal exige chapa competitiva, redução da dispersão de votos e expansão para outros polos.

Por: Adriane Barbosa do Nascimento
A Região Oeste de Mato Grosso possui 245.705 eleitores distribuídos em 22 municípios. É um contingente expressivo, equivalente a aproximadamente 9,3% do eleitorado estadual. Diante desse número, uma pergunta se torna inevitável: a região tem força suficiente para eleger um deputado estadual e um deputado federal em 2026?
A resposta é positiva, mas exige uma explicação importante. No Brasil, deputados não são eleitos apenas pela quantidade individual de votos. Primeiro, é necessário que o partido ou a federação alcance votação suficiente para conquistar uma cadeira. Somente depois se verifica quais candidatos foram os mais votados dentro daquela chapa. Em outras palavras, não basta o candidato ter votos; sua legenda também precisa ser competitiva.
Para deputado estadual, Mato Grosso dispõe de 24 cadeiras. Pelas projeções baseadas no eleitorado atual e no comparecimento de 2024, o quociente eleitoral poderá ficar próximo de 80 mil votos. Isso não significa que todo candidato precise alcançar esse número individualmente. Significa que a federação deve construir uma votação estadual próxima ou superior a essa faixa para participar, com maior segurança, da distribuição das cadeiras.
Nesse cenário, uma candidatura estadual da Região Oeste seria competitiva com aproximadamente 28 mil a 35 mil votos, desde que a federação alcance algo próximo de 90 mil a 110 mil votos em Mato Grosso. A situação para deputado federal é mais difícil. Mato Grosso possui apenas oito cadeiras na Câmara dos Deputados, o que eleva consideravelmente o quociente eleitoral. A federação provavelmente precisará aproximar-se de 250 mil votos em todo o Estado para disputar uma cadeira em condições consistentes. O candidato regional, por sua vez, deveria buscar uma votação individual entre 50 mil e 65 mil votos.
Isso demonstra que a Região Oeste pode praticamente construir a base eleitoral de um deputado estadual, mas não consegue, sozinha, resolver a eleição de um deputado federal. A candidatura federal precisa partir da região com força — entre 30 mil e 38 mil votos — e ampliar sua presença em Cuiabá, Várzea Grande, Rondonópolis e outros polos relevantes.
Também é importante compreender que as duas candidaturas não precisam dividir os eleitores regionais. A mesma pessoa pode votar em um candidato a deputado estadual e em outro a deputado federal. Uma dobradinha regional bem organizada permite que os dois recebam votos do mesmo eleitorado. O desafio está em apresentar candidaturas complementares, com identidade regional e capacidade de expansão estadual.
A força eleitoral da região está concentrada. Cáceres possui 62.365 eleitores e representa 25,39% do eleitorado regional. Somada a Pontes e Lacerda, Sapezal e Mirassol d’Oeste, essa participação chega a aproximadamente 56%. Os oito maiores municípios concentram mais de 76% dos eleitores. Isso mostra que uma estratégia regional precisa começar pelos maiores centros, mas não pode abandonar os municípios menores, onde uma presença organizada pode produzir resultados proporcionalmente relevantes.
Outro ponto merece atenção. Entre 2024 e 2026, a Região Oeste perdeu 688 eleitores, passando de 246.393 para 245.705. A redução é pequena, mas revela que o crescimento eleitoral não acontecerá automaticamente. A região precisará melhorar o comparecimento, reduzir a dispersão de votos e transformar identidade territorial em representação política efetiva.
Mais importante que perguntar quantos votos um candidato precisa ter é verificar três condições ao mesmo tempo: quantos votos a federação alcançará em Mato Grosso, qual será a posição do candidato regional dentro da chapa e quanto da votação obtida na região poderá ser ampliada para outras partes do Estado. A eleição depende do equilíbrio entre esses três fatores.
A Região Oeste possui eleitorado para exercer maior protagonismo político. O que ainda precisa construir é coordenação. Quando os votos se dispersam entre muitas candidaturas sem viabilidade de legenda, a região participa da eleição, mas não necessariamente conquista representação. Quando existe organização, chapa competitiva e um projeto territorial reconhecível, 245 mil eleitores deixam de ser apenas uma estatística e passam a constituir uma força política.
A eleição de 2026, portanto, não será apenas uma disputa entre nomes. Será também uma decisão sobre a capacidade da Região Oeste de transformar população, território e votos em presença efetiva na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados. Afinal, uma região politicamente representada não apenas reivindica: participa diretamente das decisões que definem investimentos, infraestrutura, saúde, produção e desenvolvimento.
Fonte de dados: BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Resultados – 2024. Portal de Dados Abertos do TSE. Brasília, DF: Tribunal Superior Eleitoral, 2024. Disponível em: https://dadosabertos.tse.jus.br/dataset/resultados-2024. Acesso em: 2 ago. 2026.
Autora: Adriane do Nascimento é Advogada, Consultora Econômica e Doutoranda em Direito Constitucional pelo IDP. Mestra em Economia, Políticas Públicas e Desenvolvimento, é registrada no CORECON-MT sob o nº 0001/ME. Especialista em Direito Tributário, Societário e Direito do Trabalho. É sócia-administradora da Sociedade de Advocacia Simões Santos, Nascimento & Associados. Foi consultora da Comissão Especial de Direito Tributário do Conselho Federal da OAB (2022–2024) e é autora de artigos e obras acadêmicas voltadas à tributação, desenvolvimento econômico e políticas públicas. Recebeu o 1º lugar no XXIX Prêmio Brasil de Economia (2023) e o 3º lugar no XXX Prêmio Brasil de Economia (2024), promovidos pelo COFECON.
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