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Como medicamentos e produtos que a gente consome podem contaminar as águas do Pantanal?

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Ao todo, 14 tipos de contaminantes emergentes foram detectados nos rios do Pantanal. Pesquisadores avaliam possível utilização de tecnologias naturais de tratamento

Por Danielle Tavares

 

Impulsionados pelo alto consumo e descarte inadequado, medicamentos, hormônios sintéticos, produtos de cuidados pessoais, assim como pesticidas, fármacos de uso veterinário e substâncias industriais representam riscos crescentes para os ecossistemas aquáticos do Pantanal.

Para identificar a ocorrência desses compostos, ao longo dos rios que formam esse gigantesco bioma, cientistas de dois programas de pós-graduação da Unemat, Ciências Ambientais em Cáceres e Recursos Hídricos em Cuiabá, se uniram a parceiros da Universidade de Córdoba (Colômbia).

Os chamados Contaminantes Emergentes (CEs) não são completamente removidos por tratamentos convencionais de esgoto e, por isso, têm sido detectados em rios, lagos, solos e até em organismos aquáticos. Mesmo em concentrações baixas, podem causar danos à fauna aquática e trazem riscos à saúde humana, agindo, muitas vezes, como desreguladores endócrinos.

“Embora frequentemente encontrados em baixas concentrações, muitos desses compostos apresentam comportamento persistente no ambiente e podem atuar como desreguladores endócrinos, genotóxicos e causar alterações no funcionamento do sistema imunológico, afetando negativamente peixes, crustáceos, anfíbios e humanos”, explicou o coordenador do estudo, professor Wilkinson Lopes Lázaro, doutor em Ecologia e pesquisador do Centro de Estudos em Limnologia, Biodiversidade e Etnobiologia do Pantanal, da Universidade do Estado de Mato Grosso (Celbe/Unemat).

O pesquisador Eduardo Miguel (esquerda) e o orientador Wilkinson Lopes Lázaro (direita) mapearam a presença de contaminantes emergentes em diferentes pontos do Pantanal. Foto: Acervo pessoal.

Apesar das ameaças à saúde humana, de animais, ao meio ambiente e ao grande potencial de acúmulo e dispersão, estudos que medem e mapeiam a presença desses contaminantes nas águas do Pantanal ainda são limitados.

“A legislação sobre contaminantes emergentes permanece escassa e varia de país por país, refletindo o número limitado de estudos específicos por composto”, avalia Wilkinson.

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No Brasil, pesquisa recente apontou que a água que chega nas nossas casas contém 77 contaminantes químicos, sendo 22 já mapeados por agências de saúde e 54 classificados como contaminantes emergentes.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA, por exemplo, já identificou vários ingredientes de higiene pessoal com potencial de desregulação endócrina em sua Lista de Possíveis Contaminantes da Água Potável (CCL).

COMO AVALIAR A PRESENÇA DE CONTAMINANTES NOS RIOS DO PANTANAL?

Uma pesquisa tão ampla quanto a vasta área a ser estudada. Foram analisadas águas superficiais em pontos de coletas instalados em seis locais, ao longo dos rios Paraguai e Cuiabá/São Lourenço, em abril, estação chuvosa de 2024.

Equipe selecionou seis pontos para coleta e análise. Foto: acervo Celbe.

A equipe selecionou regiões de transição na parte ocidental de Mato Grosso, contendo fragmentos de Floresta Amazônica, Cerrado e Pantanal. Esses locais ficam distribuídos nos municípios de Cáceres, Cuiabá, Barão do Melgaço e Poconé. O risco ecológico foi medido segundo parâmetros adotados internacionalmente para cada composto.

Mapa mostra os pontos onde foram colhidas as amostras, instalados nos rios Paraguai (1, 2 e 3) e Cuiabá/São Lourenço (4, 5 e 6). Imagem: Eduardo Miguel.

Os resultados da pesquisa servem de alerta. Ao todo, 14 compostos foram detectados. “A ocorrência da presença combinada de produtos farmacêuticos/ higiene pessoal e hormônios perto das margens urbanas e de pesticidas em toda a bacia ressalta a pressão mista de efluentes urbanos e agricultura”, avaliou Eduardo Miguel, estudante de Pós-Graduação em Ciências Ambientais.

Veja no infográfico abaixo como cada contaminante foi encontrado e o que provoca na saúde de humanos, animais e no ambiente.

Infográfico gerado por NotebookLM, a partir da sistematização dos principais resultados obtidos na pesquisa

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Os produtos farmacêuticos e microplásticos (BPA) foram proeminentes perto de áreas urbanas, enquanto herbicidas foram disseminados por todas as áreas, indicando influência agrícola em escala de bacia. A cafeína confirmou-se como um traçador de águas residuais domésticas.

Estes primeiros resultados fornecem um panorama inicial para o Pantanal e apoiam ações de monitoramento e mitigação direcionadas. “Recomendamos a expansão para séries temporais multi-sazonais e a integração de dados de uso do solo e saneamento para refinar as ações de mitigação e salvaguardar a integridade deste importante ecossistema”, considera o pesquisador Eduardo.

TECNOLOGIAS NATURAIS DE TRATAMENTO

A equipe vem avaliando o potencial de remoção desses compostos por sistemas naturais de tratamento, como Wetlands Construídos (em livre tradução, zonas úmidas construídas).

Esses sistemas simulam áreas úmidas naturais. Eles utilizam materiais filtrantes como microrganismos e macrófitas aquáticas para remover contaminantes por processos combinados de adsorção, oxidação, filtração, fotodegradação, biodegradação e fitoextração. Foto: Acervo Lipan.

Estudos anteriores mostram que sistemas construídos podem remover de forma eficiente compostos como cafeína, diclofenaco, ibuprofeno e bisfenol A, além de nutrientes e surfactantes.

“Frente à necessidade de soluções de baixo custo, baixa demanda energética e fácil operação, os wetlands construídos representam alternativa promissora para o saneamento descentralizado no Brasil”, explicou Eduardo Miguel.

A primeira estação experimental foi instalada em uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), no município de Cáceres (MT), e os resultados foram positivos. A equipe, agora, pretende ampliar para municípios de pequeno e médio porte.

SAIBA MAIS

A pesquisa “Avaliação de contaminantes emergentes no pantanal mato-grossense: estudo de campo” vem sendo desenvolvida pelo estudante de Pós-Graduação em Ciências Ambientais, Eduardo Miguel, sob orientação de Wilkinson Lopes Lázaro, e parceria de José Marrugo Negrete (Universidad de Córdoba), Francisco Lledo dos Santos (ProfÁgua – Unemat) e Ernandes Sobreira Oliveira Júnior (ProfÁgua e Ppgca – Unemat).

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Rompimento em estação de esgoto contamina córrego e mobiliza autoridades em Mirassol d’Oeste

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Por Assessoria

A Defesa Civil informou, o rompimento de uma estação de tratamento de esgoto no município de Mirassol d’Oeste. O incidente causou impacto direto no córrego do André, gerando preocupação quanto à qualidade da água e possíveis riscos à saúde da população.

De acordo com o comunicado oficial, a SEMA já realizou a coleta de amostras da água para análise laboratorial. Enquanto o laudo técnico não é divulgado, a orientação das autoridades é que moradores evitem qualquer contato com a água do córrego, bem como o seu consumo.

A Prefeitura Municipal informou que medidas emergenciais já estão sendo adotadas para conter os danos e solucionar o problema na estrutura da estação de tratamento. Equipes técnicas atuam no local para reparar o sistema e minimizar os impactos ambientais.

O caso segue em monitoramento, e novas informações devem ser divulgadas após a conclusão das análises, que irão determinar o nível de contaminação e as ações adicionais necessárias.

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Fronteira da Dignidade: A resistência contra o silenciamento dos Direitos Humanos em Cáceres

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Por Assessoria

Em Cáceres, onde o Brasil se encontra com a Bolívia ao longo de mais de 700 quilômetros de fronteira seca, o Centro de Referência em Direitos Humanos (CRDH) se consolida como um verdadeiro porto seguro contra a invisibilidade e a desumanização. No dia 16 de abril de 2026, a notícia de um possível fechamento da unidade, motivado por contenção de custos, mobilizou a sociedade civil e autoridades em uma audiência pública na Câmara Municipal, transformando o plenário em um espaço de defesa firme e inegociável da dignidade humana.

A coordenadora do centro, Polianna de Souza, abriu o debate com um lembrete essencial: embora o CRDH já tenha alcançado mais de 20 mil pessoas desde sua criação, seu verdadeiro impacto não cabe em números.
Ele se revela nas trajetórias reconstruídas. Como a de Lucia Melo Garrido e de seu esposo, o artesão chileno Hiram Garrido Sanhueza, que por anos viveram à margem, dormindo sob o teto da universidade local apenas quando a cidade silenciava. Ex-moradores de rua, o casal de artesãos encontrou no CRDH a ponte para a documentação e, consequentemente, para a educação. “Esperávamos a cidade dormir para poder descansar”, relatou Lúcia em um depoimento que silenciou o plenário. Hoje, aos 54 anos, ela está concluindo o ensino médio e planeja a faculdade, junto com Irã, e também se especializam em cursos técnicos. O relato deles evidencia que o fechamento da unidade não economiza dinheiro; ele interrompe trajetórias de dignidade.

Essa atuação se sustenta em uma rede institucional que articula diferentes níveis do sistema de justiça. O defensor público estadual Diego Rodrigues Costa destacou o papel estratégico do centro no atendimento a famílias de pessoas privadas de liberdade, um grupo frequentemente invisibilizado e penalizado junto com quem está preso. Segundo ele, o CRDH se tornou a principal ponte entre essas famílias e a Defensoria Pública, especialmente em questões que envolvem saúde mental e dignidade no sistema carcerário.

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A mesma percepção foi compartilhada pelo defensor público da União, Renan Souto Maior, que ressaltou a importância da unidade na identificação de casos de trabalho análogo à escravidão e na regularização de crianças brasileiras nascidas em território boliviano. A presença de Grover Paco Arce, representante do Consulado da Bolívia, evidenciou que a atuação do CRDH ultrapassa fronteiras nacionais, lidando com uma realidade transfronteiriça complexa, onde violações de direitos frequentemente não encontram resposta institucional adequada. Sem essa estrutura na ponta, muitas dessas situações sequer chegam ao conhecimento das instâncias judiciais.
O secretário adjunto de Direitos Humanos, Cristiano Nogueira, enfatizou que sua participação no encontro visava, acima de tudo, abrir os ouvidos para as realidades de quem vive na fronteira. Ao se colocar como um elo entre o território e a capital, Cristiano buscou garantir que o trabalho de manutenção do Centro de Referência não ficasse restrito aos debates da Câmara.

A indignação diante da ameaça de fechamento ganhou dimensão política na fala do vereador Cézare Pastorello. Ele chamou atenção para uma contradição estrutural: enquanto se luta para preservar um equipamento essencial, o município convive com outras violações massivas de direitos. Entre elas, a ausência de transporte público, que compromete o acesso de idosos a serviços bancários, de estudantes às escolas e de pacientes às unidades de saúde. Trata-se, segundo o parlamentar, de uma barreira concreta ao exercício da liberdade, um direito que, na prática, segue negado a grande parte da população.

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O debate também apontou caminhos. Rodrigues Schneider, da Ouvidoria Geral de Polícia de Mato Grosso (OGP-MT), sugeriu a evolução do modelo atual para uma unidade especializada de fronteira, capaz de responder a demandas específicas como o tráfico de pessoas e o atendimento a migrantes de múltiplas nacionalidades. A complexidade social de Cáceres, marcada por desigualdades profundas e pelo racismo estrutural, refletido de forma evidente no sistema prisional, como destacou Marcela Profeta, exige não apenas a manutenção, mas o fortalecimento das políticas públicas de direitos humanos.

Outras vozes reforçaram a urgência do tema. Valquíria de Souza, do Conselho Municipal de Educação (CMEC), alertou para os entraves documentais que ainda impedem crianças migrantes de acessarem a escola, perpetuando ciclos de exclusão. Representantes do Ministério Público, da OAB e da Organização Internacional para as Migrações foram unânimes: a rede de proteção social de Cáceres depende diretamente da atuação do CRDH.
Ao final, muito além do que uma audiência, o encontro consolidou um posicionamento coletivo. A economia de recursos não pode servir de justificativa para o apagamento de vidas. Manter o CRDH ativo é garantir que a fronteira não se transforme em linha de abandono, mas permaneça como território de encontro, acolhimento e afirmação de direitos.

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