O afastamento de Kleber Lima

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Nas pouco mais de três décadas no diletantismo como  repórter, chefe de reportagem, editor de área e diretor de redação de jornais e sites diários em Goiânia e Cuiabá já me deparei com inúmeras decisões judiciais esquisitas, permissivas, mornas e injustas – propriamente dito, mas nenhuma que se compare à da juíza Célia Vedotti, ao ter afastado o secretário estadual Kleber Lima (Comunicação) sob a justificativa de que ele poderia atrapalhar o processo.

De caráter artificioso, pingente do ponto de vista legal, o afastamento de Lima, com essa decisão anêmica e insensata, sem amarras do bom senso e da justiça, a “sentença” se sustenta no eventual assédio moral [e sexual] contra uma funcionária de carreira do Estado, conhecida, politicamente, pelas suas ligações ao esquerdismo e, pela lógica, contrária às posições partidárias do atual governo.

No que foi divulgado, em tese, do diálogo entre o secretário e a funcionária, nada faz parecer que Kleber Lima a estivesse ameaçado ou assediado moralmente. Consta um “pito” do secretário a lhe recomendar que as notícias relacionadas ao governo tinham que constar o nome do governador, não do secretário ao qual a funcionária é diretamente subordinada. Diz Kleber: “se você não gosta do governo, é um direito seu, mas você trabalho no governo. Suas convicções políticas você usa fora do trabalho. Se você fosse contratada eu te demitiria, mas você é concursada e eu não posso demiti-la”, foi o que disse Kleber Lima, nestas e outras palavras, ao repreendê-la como qualquer chefe de departamento, seção, loja ou em qualquer instância onde há chefes e subordinados. Ao que consta, a legislação não prevê crime ao chefe que chama a atenção de um subordinado nesses termos. Onde está o assédio moral nisso¿ Santa paciência, doutora Vedotti!

No que tange ao assédio sexual, conheço o Kleber Lima há duas décadas e cantar colegas ou subordinadas não lhe apraz. Ele foi chefe do Diário de Cuiabá, trabalhou em cargos de chefa na A Gazeta, Rádio Cultura, na KGM, no Hipernotícias, foi secretário-adjunto do Estado, secretário de Governo e Comunicação da prefeitura de Cuiabá. Conviveu com muitas mulheres subordinadas, quase milhares delas. Nesse tempo, qual foi a hora em que investiu, na qualidade de chefe hierárquico, com intuito de favores sexuais¿ Eu desconheço. Aliás, não só eu: mais de 100 jornalistas que assinaram uma “Carta de apoio” parecem também desconhecer esse perfil de Lima, íntegro, recolhido e discreto. Considere-se que muitos por não saberem da carta, não assinaram embaixo. Certamente lhe seriam testemunhas de defesa.

Fazer brincadeiras com colegas no trabalho, homens ou mulheres, beijinhos, até selinhos, abraços, afagos, é comum em qualquer repartição. Isso acontece em Cuiabá, em Quixeramobim, Maranguape, em Atlanta ou em Moscou. Aos olhos da juíza Célia, contudo, parece que apenas no imaculado e virgem judiciário as pessoas não se manifestam com carinho a colegas.

Num tempo em que senadores, ministros do Executivo e Judiciário, deputados federais, governadores e o chefe de Estado se insultam todos os dias nessa esculhambação chamada Brasil, não é surpresa uma decisão tão despedida de pudor legal. Neste tempo de missivas e perfis digitais, nunca fui pego de surpresa por ler magistrado manifestando-se sobre suas decisões em redes sociais do facebook e tweeter, numa estonteante e esnobe loucura de vaidades. Ainda colho a ideia, mesmo com a web, que um juiz (a) deva ser, primeiramente justo(a). Depois discreto e menos afeito à ribalta, ao proscênio e ao planetário.

O afastamento do secretário, ao meu ver, cria um precedente para que nenhuma ocasião algum chefe, em qualquer hierarquia, possa chamar um subalterno aos termos. Terá sido “assédio moral”, que é uma condição muito mais agressiva e complexa que a vã ótica da dra. Célia. Afastá-lo seria justo se fosse um caso de corrupção, de desvio de recursos, favorecimento, enriquecimento … Nada disso está em pauta, não se trata de adulterar paleadas no seu gabinete ou esconder provas de propinas  Ou é falta de criatividade, falta do que fazer mesmo, ou simplesmente abusar do direito de punir. Do punir por punir, do alto das sandálias que o cargo grita, ou sob a toga da arrogância que cobre muito e muitos magistrados. Foi um afastamento  risível, cômico, mas revoltante e que exige por protesto e causa indignação.

Jorge Maciel é jornalista.

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