Bolso vazio e ajuda de jogadores: o drama dos funcionários do Santa Cruz

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A última semana foi conturbada no Santa Cruz. Não bastasse o desempenho pífio em campo – vice-lanterna da Série A, vê o rebaixamento cada vez mais próximo -, os problemas externos ganharam destaque. Há cinco meses sem receber salários, os funcionários do clube cruzaram os braços, na última quinta-feira, e decretaram greve. O presidente Alírio Moraes amenizou a situação, um dia depois, após uma reunião com todos e, posteriormente, com uma comissão formada por líderes de diferentes setores. Conversas à parte, a realidade é que muitos trabalhadores vivem um drama. Sem dinheiro no bolso, passam por necessidade, minimizadas pela solidariedade de alguns atletas, que ajudam como pode.

Alírio prometeu apresentar, até a sexta-feira, um plano de pagamento. A reportagem do GloboEsporte.com acompanhou o caso e conversou com trabalhadores. As histórias são tristes. Não à toa, a opção de ir além do lugar-comum do futebol. A greve, mais do que uma pressão legal, na tentativa de fazer valer o direito sagrado de receber por serviços prestados, foi uma cartada lançada por conta desespero de muitos que estão no aperto.

Grande parte dos funcionários recebe um salário mínimo – corresponde a R$ 880. Esses são os mais sofridos. Por terem uma renda curta, passam por dificuldades e, muitas vezes, contam com a ajuda de jogadores do elenco profissional. 

Segundo funcionários, a perspectiva, após a volta triunfal à elite nacional, era positiva e com dinheiro no bolso. Com o clube, em tese, mais capitalizado, com boas cotas de patrocínio, de televisão e renda de jogos, a tendência era de uma temporada sem atropelos. 

Reunião Alírio Santa Cruz (Foto: Assessoria de imprensa)Na reunião com os funcionários, Alírio Moraes prometeu um plano de pagamento (Foto: Assessoria de imprensa)


Na época da Série D não era assim, a gente recebia tudo em dia. Como
pode? Naquela época o Santa mal tinha receita e, agora, com dinheiro
entrando, a gente fica nesta situação. Será que o time tem de voltar
para a Quarta Divisão para a gente ter uma vida normal de novo? – indagou
um funcionário, que não quis se identificar.

Um outro funcionário afirmou que o problema o atinge em casa. Por causa da falta de dinheiro, precisa receber doações de outros membros da família.

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– Sempre tem um que manda um quilo de feijão, outro manda um quilo de arroz e a gente vai vivendo. Se não fosse minha mulher ajudando em casa, não sei como estaria. Ainda tenho que pagar a mensalidade da escola do meu filho e não vejo um centavo aqui no clube. A situação é difícil. Se quiserem me demitir, tudo bem. O que não posso é ficar nessa situação. Têm conhecidos meus que perguntam porque eu não saio. A galera pensa que a gente tá aqui porque gosta. A gente tá aqui é porque precisa. 

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A ajuda dos jogadores

Grafite Santa Cruz (Foto: Marlon Costa/ Pernambuco Press)Grafite ajuda os funcionários de várias formas (Foto: Marlon Costa/ Pernambuco Press)

– Um dos caras mais corretos aqui é Grafite. Ganhou tudo na vida, tem dinheiro e não sei por que voltou. É humilde, fala com os funcionários e sempre está ajudando. Nunca vi um cara como ele. Outro que ajuda é Bruno Moraes, Danny sei que dá dinheiro para um outro pessoal – contou um funcionário.

Segundo relatos, Grafite exerce um papel de liderança fora de campo. O camisa 23 foi um dos primeiros a relatar o problema da falta de salário não só dos funcionários, mas dos jogadores, que não recebem há dois meses. Além da ajuda financeira, atletas dão camisas e ingressos aos quais têm direito para os trabalhadores venderem. Vale tudo na luta contra a falta de dinheiro.

– Eles dão cestas básicas para a gente quando podem. Outra coisa: às vezes, pedem para que as pessoas da cozinha façam mais comida para que sobre para nós. Já fiquei sabendo de jogador que fez a refeição em casa para poder passar a que ele faria clube, para a gente. De vez em quando, uma cozinheira nos avisa que tem sopa e a gente faz mais um lanche – relatou um outro funcionário.

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A explicação do presidente

Alírio Moraes Santa Cruz (Foto: Daniel Gomes)Esforço de Alírio Moraes é reconhecido pela maioria dos funcionários (Foto: Daniel Gomes)

Nas reuniões durante a semana, o presidente Alírio Moraes abriu o jogo. Bateu na tecla das receitas bloqueadas
por conta de débitos antigos. O Santa Cruz se vê com a corda no pescoço
e, muitas vezes, tem tirado dinheiro do bolso para
resolver pendências judiciais.

– Os funcionários foram muito sacrificados. Tem havido falhas de comunicação nossa. E estamos revendo uma série de procedimentos. Tenho vindo ao clube, entrado em vestiários, conversado com os jogadores. Tenho me colocado em um cenário de humildade – reconheceu o presidente, que é elogiado por funcionários, que reconhecem o esforço.

Alírio Moraes tomou conhecimento da revolta dos funcionários quando tentava receitas para o clube. Advogado, utiliza o próprio escritório como uma fonte de renda para o clube. O dinheiro de algumas ações é revertido ao Santa Cruz.

– Estava correndo atrás de receita e, infelizmente, o quadro foi se agravando. Houve inquietação. E era preciso ter uma conversa olho no olho com eles.

Os problemas financeiros no Santa Cruz são antigos. Há a espera da liberação de R$ 4 milhões em cotas. Mas sabe que o valor não será suficiente para quitar a conta. Nos dias atuais, o passivo mensal total do clube gira em torno de R$ 3,5 milhões.

– Por isso trabalho no campo pessoal com uma linha de financiamento e outras soluções que vão acontecer. Espero estar no final do ano confraternizando com eles na piscina do clube com uma tranquilidade muito grande e pensando em 2017.


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